Como Conseguir Afastamento por Burnout Passo a Passo Completo

Como Conseguir Afastamento por Burnout: Passo a Passo Completo

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O que este guia cobre:

  • Como funciona o afastamento por burnout na prática — quem paga, por quanto tempo
  • Diferença entre os dois tipos de benefício INSS (B31 e B91) e qual é melhor para você
  • Passo a passo para solicitar o benefício — do atestado à perícia
  • Quais documentos reunir e como fortalecer seu pedido
  • Seus direitos durante e após o afastamento
  • O que fazer se a perícia negar o benefício

 

⚡  Antes de continuar:

Este guia é informativo. Para situações específicas — especialmente se houver assédio, nexo causal complexo ou disputa com a empresa — consulte um advogado trabalhista ou previdenciário. Muitos oferecem primeira consulta gratuita.

 

Pedir afastamento por burnout ainda carrega um peso desnecessário de culpa e medo. Mas afastamento é tratamento — exatamente como internação para uma cirurgia. E a lei garante seus direitos durante esse período.

1. Como Funciona o Afastamento por Burnout

O afastamento por burnout segue o mesmo fluxo de qualquer afastamento por doença. A diferença importante é que, quando o burnout é reconhecido como doença ocupacional (causada pelo trabalho), os direitos são maiores.

 

Período Quem paga O que você faz O que a empresa faz
Dia 1–15 EMPRESA (salário integral) Repouso, consultas, documentação Continuar pagando normalmente. Não pode demitir.
Dia 16+ INSS (auxílio-doença B31 ou B91) Perícia médica INSS agendada e realizada Estabilidade garantida até 30 dias após a alta
Retorno EMPRESA (salário integral) Retorno gradual + acompanhamento médico Se B91 (acidente trabalho): estabilidade de 12 meses após alta

 

Os dois tipos de benefício INSS — qual é para você

Benefício Quando se aplica Vantagem principal
B31 — Auxílio-doença previdenciário Burnout reconhecido como problema de saúde, sem necessidade de nexo com o trabalho Mais fácil de conseguir. Sem estabilidade após retorno.
B91 — Acidente de trabalho Burnout com nexo causal com as condições de trabalho — precisa ser demonstrado Estabilidade de 12 meses após retorno. FAP da empresa aumenta. Mais vantajoso para o trabalhador.

 

💡  Qual devo pedir?

Se você tem evidências de que o burnout foi causado pelas condições de trabalho — sobrecarga documentada, assédio, jornadas abusivas — vale buscar o B91, que garante a estabilidade de 12 meses após o retorno. O médico do trabalho e, se possível, um advogado trabalhista podem ajudar a construir esse nexo.

2. Passo a Passo: Do Atestado ao Benefício

Passo 1 — Consulte um médico e obtenha o atestado

O primeiro passo é uma consulta médica. Pode ser com clínico geral, psiquiatra, médico do trabalho ou qualquer médico registrado no CRM.

O que pedir na consulta:

  • Atestado médico com CID e prazo de afastamento
  • Laudo detalhado se possível (especialmente com psiquiatra)
  • Receitas de medicamentos prescritos — guardar sempre
  • Encaminhamento para médico do trabalho se quiser buscar o B91

 

📋  CIDs mais comuns em diagnósticos de burnout:

  • QD85 — Burnout (CID-11, ainda em implementação no Brasil)
  • F43.2 — Transtorno de adaptação (muito usado para burnout com nexo laboral)
  • F32.x — Episódio depressivo (quando há depressão associada)
  • F41.x — Transtornos de ansiedade (quando ansiedade é o quadro dominante)
  • Z56.x — Problemas relacionados ao emprego (usados como CID secundário para nexo)

 

Passo 2 — Comunique a empresa

Você tem obrigação de comunicar o afastamento ao empregador. Faça sempre por escrito — e-mail ou mensagem com confirmação de leitura. Guarde o comprovante.

O que comunicar:

  • Que você tem atestado médico e precisará se afastar
  • A data de início e o prazo previsto
  • Entregue o atestado original ao RH (guarde cópia digitalizada)

 

⚠️  Não precisa dar explicações detalhadas:

Você não é obrigado(a) a explicar a causa do afastamento além do atestado médico. ‘Problema de saúde’ é suficiente. Detalhes sobre sua saúde mental são sigilosos.

 

Passo 3 — Do 16º dia: Agende a perícia do INSS

Se o afastamento durar mais de 15 dias, você precisa solicitar o benefício no INSS. A empresa não paga além do 15º dia — o INSS assume.

  1. Acesse o Meu INSS: pelo site meu.inss.gov.br ou pelo aplicativo Meu INSS (disponível no celular).
  2. Faça login com GOV.BR: se não tiver conta, crie na hora com CPF e dados pessoais.
  3. Solicite ‘Auxílio por Incapacidade Temporária’: é o nome oficial do antigo auxílio-doença.
  4. Agende a perícia médica: o INSS vai agendar uma perícia. Compareça com toda a documentação.
  5. Aguarde o resultado: normalmente em 30 dias. Se aprovado, o pagamento começa retroativo ao 16º dia.

 

Passo 4 — A perícia médica do INSS

A perícia é uma consulta com médico perito do INSS que vai avaliar sua incapacidade. É o momento mais importante do processo — veja como se preparar:

  • Leve TODA a documentação médica: atestados, laudos, receitas, exames
  • Descreva seus sintomas com honestidade e precisão — não minimize
  • Relate como os sintomas afetam sua capacidade de trabalhar: ‘Não consigo me concentrar’, ‘Tenho crises de choro’, ‘Não durmo mais de 3 horas’
  • Mencione tratamentos em andamento: psicoterapia, medicação
  • Se tiver acompanhante médico ou advogado, pode levá-los

 

🔍  Erros comuns na perícia:

Minimizar os sintomas por vergonha (‘Estou melhor agora’, ‘Não é tão grave assim’). O perito avalia o momento atual — seja honesto(a) sobre o que você não consegue fazer, não sobre o que conseguiu fazer no melhor dia da semana.

3. Checklist de Documentação

Reúna tudo antes de começar o processo. Documentação completa aumenta muito as chances de aprovação na primeira perícia.

 

Documento Tenho Falta
Atestado médico com CID (QD85 burnout ou F43.x / F32.x / F41.x) e prazo de afastamento ☐ Sim ☐ Falta
Laudo do psicólogo ou psiquiatra descrevendo sintomas e contexto de trabalho ☐ Sim ☐ Falta
Documentos de identidade e carteira de trabalho ☐ Sim ☐ Falta
Número do NIT/PIS (necessário para cadastro no INSS) ☐ Sim ☐ Falta
Contracheque ou comprovante de vínculos empregatícios ☐ Sim ☐ Falta
Histórico de consultas e receitas médicas relacionadas ☐ Sim ☐ Falta
E-mails ou mensagens que documentem sobrecarga, cobrança excessiva ou assédio ☐ Sim ☐ Falta
Registro de jornada (ponto eletrônico, controles de horário) ☐ Sim ☐ Falta
Comunicação com RH sobre condições de trabalho (se houver) ☐ Sim ☐ Falta
Comprovante de residência atualizado ☐ Sim ☐ Falta

 

Como fortalecer o nexo causal (para buscar o B91)

Se você quer que o burnout seja reconhecido como doença ocupacional — com direito à estabilidade de 12 meses — precisa documentar que as condições de trabalho causaram o adoecimento:

  • E-mails com cobranças abusivas, mensagens fora de horário, ameaças de demissão
  • Registros de jornada que comprovem horas excessivas
  • Conversas documentando assédio moral, pressão desproporcional ou isolamento
  • Laudo do médico do trabalho vinculando o diagnóstico ao ambiente laboral
  • Depoimentos de colegas (se disponíveis e seguros)
  • Comunicações com RH sobre condições de trabalho antes do afastamento

4. Seus Direitos Durante e Após o Afastamento

Durante o afastamento

  • Manutenção do plano de saúde — a empresa não pode cancelar
  • Depósito do FGTS continua durante o afastamento
  • Proibição de demissão enquanto recebe o benefício
  • Férias continuam acumulando
  • Contagem de tempo de serviço e contribuição ao INSS continuam

 

Após o retorno

  • B31 (auxílio comum): sem estabilidade formal, mas demissão logo após pode ser questionada
  • B91 (acidente de trabalho): estabilidade de 12 meses — demissão nesse período é nula
  • Direito a retorno gradual — o médico pode recomendar retorno progressivo de função
  • Empresa não pode exigir mesmas condições que causaram o adoecimento no retorno

 

Indenizações adicionais

Se o burnout foi causado por condições de trabalho que a empresa tinha obrigação de gerenciar (NR-1, Lei 14.457/2022), você pode pleitear na Justiça do Trabalho:

  • Indenização por danos morais pelo sofrimento causado
  • Indenização por danos materiais (gastos com tratamento)
  • Indenização por danos existenciais (impacto na vida pessoal e projetos)
  • Rescisão indireta com todas as verbas se o ambiente continuar insuportável

5. E Se a Perícia Negar o Benefício?

A negativa na primeira perícia é mais comum do que deveria ser. Não significa que você não tem direito — significa que precisa recorrer.

Opção 1 — Recurso administrativo

  1. Prazo: 30 dias a partir da notificação da negativa.
  2. Como: pelo site Meu INSS, acesse ‘Recurso Ordinário contra Indeferimento de Benefício’.
  3. Fortaleça: adicione laudos, relatórios e documentação que você não tinha na perícia original.
  4. Resultado: o pedido vai para o Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS).

 

Opção 2 — Ação judicial

Se o recurso administrativo também for negado, ou se quiser agilizar, é possível entrar com ação no Juizado Especial Federal (JEF). Com laudo médico robusto, as chances de êxito são significativas.

Advogado previdenciário pode analisar seu caso — muitos trabalham com honorários somente em caso de êxito (percentual do benefício atrasado).

 

💡  Dica prática:

Guarde cópia de todos os documentos enviados ao INSS e de todas as comunicações. Protocolos, números de processo, datas — tudo. Em caso de recurso ou ação, esse histórico é fundamental.

6. Perguntas Frequentes

 

Dúvida frequente Resposta direta
Meu médico pode me dar atestado sem ser especialista? Sim. Qualquer médico pode emitir atestado. Clínico geral, médico de família, pronto-socorro. O atestado de especialista (psiquiatra) tem mais peso na perícia, mas não é obrigatório.
Preciso provar que o burnout foi causado pelo trabalho? Para o B31 (auxílio-doença comum), não. Para o B91 (acidente de trabalho, com estabilidade), sim — o nexo causal precisa ser documentado. O médico do trabalho ajuda nesse processo.
A empresa pode me demitir durante o afastamento? Não — durante o afastamento INSS a demissão é vedada. Após o retorno, se for B91, há estabilidade de 12 meses. Demissão nesse período é nula e gera direito a reintegração ou indenização.
E se a perícia do INSS negar o benefício? Você pode recorrer administrativamente no próprio INSS (recurso ao CRPS), ou entrar com ação judicial. Com laudo médico robusto, as chances de reversão são altas. Advogado previdenciário pode ajudar.
Preciso de advogado para pedir o afastamento? Para o pedido inicial de auxílio-doença (B31), não. O processo é administrativo e você faz sozinho pelo Meu INSS. Para o B91 ou para ações trabalhistas, o advogado é muito recomendado.
Posso trabalhar em outro lugar durante o afastamento? Não, sem autorização do INSS. Trabalhar durante o benefício configura fraude e pode resultar em suspensão do pagamento e devolução dos valores recebidos.
Afastamento não é derrota — é tratamento

 

Pedir afastamento por burnout é um ato de responsabilidade — com sua saúde, com sua família, e paradoxalmente com o seu trabalho a longo prazo. Pessoas que insistem e não tratam ficam mais tempo fora e com sequelas maiores.

A lei está do seu lado. Use-a.

 

✅  Resumo dos próximos passos:

  • 1. Consulte um médico e obtenha o atestado com CID
  • 2. Comunique a empresa por escrito e entregue o atestado
  • 3. Se passar de 15 dias: solicite o benefício pelo Meu INSS
  • 4. Reúna a documentação do checklist antes da perícia
  • 5. Se negar: recorra dentro de 30 dias
  • 6. Consulte advogado trabalhista para avaliar direito a indenizações

 

Links úteis:

  • Meu INSS: meu.inss.gov.br | App: Meu INSS | Telefone: 135
  • Ministério Público do Trabalho: mpt.mp.br
  • Defensoria Pública: atendimento jurídico gratuito
  • Guia completo de burnout: [link para o artigo pilar]

 

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