Você marcou a consulta. Mas agora trava na mesma pergunta: o que eu falo quando chegar lá?
Muita gente chega ao consultório, o médico pergunta “o que está acontecendo?” — e a resposta sai minimizada, confusa ou incompleta. “Estou um pouco cansado.” “Acho que é estresse.” “Não sei se é nada demais.”
E aí sai com uma receita de ansiolítico e sem o afastamento que precisava.
Este artigo existe para que isso não aconteça com você. Vamos te preparar para essa consulta — o que relatar, como organizar o que está sentindo, quais perguntas fazer e quais são seus direitos legais nesse processo.
Por que as pessoas saem da consulta sem o que precisam
Não é culpa do médico — na maioria das vezes. É que burnout não aparece num exame de sangue. Não tem febre, não tem fratura visível. O diagnóstico depende quase inteiramente do que o paciente relata.
E aí entram dois problemas típicos:
1. A minimização automática. Passamos anos ouvindo que precisamos “aguentar”, que “todo mundo está estressado”, que “isso passa”. Quando chegamos ao médico, essa voz interna nos faz suavizar tudo — mesmo sem perceber.
2. A falta de organização do relato. Burnout tem muitos sintomas, em áreas diferentes da vida. Sem organizar antes o que vai dizer, a consulta de 20 minutos vira um relato fragmentado — e o médico não consegue montar o quadro completo.
A solução para os dois problemas é a mesma: preparação.
Antes da consulta: o que anotar
Reserve 20 minutos antes da consulta para escrever — num papel, no celular, onde preferir — as respostas para estas perguntas. Leve isso com você.
Sobre os sintomas físicos (faça o teste de burnout aqui)
- Você tem dormido? Quantas horas? Acorda descansado?
- Tem sentido dores físicas recorrentes — cabeça, pescoço, ombros, estômago?
- Sua imunidade caiu? Fica doente com mais frequência?
- Sente palpitações, aperto no peito, falta de ar em situações de trabalho?
- Perdeu ou ganhou peso sem mudar a alimentação?
Sobre os sintomas emocionais e cognitivos
- Consegue se concentrar? Por quanto tempo?
- Tem esquecido coisas com frequência — compromissos, nomes, tarefas?
- Sente indiferença ou vazio em relação ao trabalho — ou à vida em geral?
- Chora com facilidade, sem motivo claro?
- Sente que não tem saída, que as coisas não vão melhorar?
- Tem pensamentos de desistência — do trabalho, de relacionamentos, ou algo mais sério?
Sobre o contexto de trabalho
- Há quanto tempo está assim?
- O que mudou no trabalho nos últimos meses — carga, equipe, chefia, pressão?
- Quantas horas por dia você trabalha de fato? Trabalha nos fins de semana?
- Consegue desligar do trabalho quando está fora dele?
- Já tirou férias recentemente? Descansou de verdade?
Sobre o impacto na vida fora do trabalho
- Seus relacionamentos foram afetados — cônjuge, filhos, amigos?
- Abandonou hobbies ou atividades que antes te davam prazer?
- Está usando álcool, medicamentos ou outras substâncias para aguentar o dia ou desligar à noite?
💡 Dica: Não filtre o que vai anotar. Coloque tudo. O médico vai selecionar o que é relevante — mas ele precisa do quadro completo para fazer isso bem.
Na consulta: como relatar sem minimizar
Esta é a parte mais difícil para a maioria das pessoas. Algumas orientações práticas:
Comece pelo tempo e pela intensidade
Não diga apenas “estou cansado”. Diga:
“Estou com esse nível de esgotamento há aproximadamente [X semanas/meses]. O cansaço não passa com descanso. Acordo exausto mesmo depois de dormir.”
Tempo e intensidade são as duas variáveis que mais pesam no diagnóstico de burnout.
Fale dos sintomas físicos — mesmo os que parecem “sem relação”
Dores de cabeça, tensão muscular, problemas gastrointestinais, queda de imunidade — muita gente não menciona porque acha que “não tem relação com o estresse”. Tem. Mencione tudo.
Não use só a palavra “burnout”
Descreva o que você sente — não só o rótulo. “Burnout” pode gerar resistência em alguns profissionais ou soar como autodiagnóstico. O que convence é o relato detalhado dos sintomas. O diagnóstico é papel do médico.
Se tiver pensamentos de desistência — diga
Se em algum momento você teve pensamentos de que “seria melhor não estar aqui” ou de se machucar, diga ao médico. Isso não vai te internar compulsoriamente — mas é uma informação crítica para o tratamento correto. Omitir isso é perigoso.
Leia suas anotações se precisar
Não há nenhum problema em chegar com um papel na mão e dizer: “anotei o que estava sentindo para não esquecer na hora.” Médicos bons adoram pacientes preparados. Isso economiza tempo e aumenta a precisão do diagnóstico.
Perguntas que você pode — e deve — fazer ao médico
A consulta não é uma via de mão única. Você tem o direito de perguntar:
- “Com base no que relatei, você acredita que estou em burnout ou em risco de burnout?”
- “Você recomenda afastamento do trabalho? Por quanto tempo?”
- “Qual CID você vai usar no atestado?” — para burnout, o mais adequado é o QD85 (CID-11) ou F48.0/Z73 (CID-10)
- “Você recomenda acompanhamento psicológico junto com o tratamento médico?”
- “O que eu devo evitar e o que devo fazer durante o período de afastamento?”
- “Quando devo retornar para reavaliação?”
Qual médico procurar?
Não existe uma única porta de entrada. Qualquer um destes profissionais pode diagnosticar e emitir atestado para burnout:
- Clínico geral / médico de família: a porta mais acessível. Pode avaliar, emitir atestado e encaminhar para especialista se necessário
- Psiquiatra: o especialista mais indicado quando há suspeita de burnout com ansiedade ou depressão associadas — o que é muito comum
- Médico do trabalho: especializado em doenças ocupacionais. Tem peso extra na relação com o INSS e com a empresa
Se você tem plano de saúde, pode ir diretamente ao psiquiatra. Se não tem, o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) e as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) oferecem atendimento pelo SUS — incluindo psiquiatria.
Como funciona o afastamento na prática
Muita gente tem medo de pedir afastamento porque não entende como funciona. Aqui está o básico:
Até 15 dias: o atestado médico é entregue ao RH da empresa. A empresa paga o salário normalmente. Você não precisa acionar o INSS.
A partir do 16º dia: o caso é encaminhado ao INSS. Você passa por perícia médica e, se aprovado, recebe o auxílio-doença. Se o burnout for reconhecido como doença ocupacional — o que é o caso quando há nexo com o trabalho — o benefício é o B91 (auxílio-doença acidentário), que garante estabilidade de 12 meses após o retorno.
Durante o afastamento: a empresa não pode te demitir. Você não perde férias, FGTS ou outros direitos. O período conta para aposentadoria.
⚠️ Atenção: O atestado médico precisa ter CID, assinatura, carimbo com CRM e data. Sem esses elementos, o RH pode recusar. Confira antes de sair do consultório.
E se o médico não levar a sério?
Infelizmente, ainda acontece. Se você sentir que foi minimizado ou dispensado sem a atenção que seu caso merece:
- Peça uma segunda opinião. Você tem esse direito — e não precisa explicar para ninguém.
- Busque um psiquiatra. São os profissionais com maior familiaridade com burnout e suas nuances diagnósticas.
- Leve suas anotações. Um relato organizado e detalhado é muito mais difícil de ignorar do que um relato verbal fragmentado.
- Não desista na primeira consulta. O processo de diagnóstico às vezes leva mais de uma consulta — especialmente quando os sintomas são complexos ou coexistem com outras condições.
Depois da consulta: os próximos passos
Se saiu com atestado: entregue ao RH dentro do prazo (geralmente 48h úteis). Guarde uma cópia. Peça confirmação por escrito do recebimento.
Se saiu sem atestado mas com encaminhamento: siga o encaminhamento — e volte para reavaliação dentro do prazo indicado. Não abandone o processo.
Se saiu sem nada e ainda está mal: busque outro profissional. Seu sofrimento é real. Não deixe que uma consulta insatisfatória seja o fim do processo.
Em todos os casos: considere iniciar ou continuar acompanhamento psicológico. O afastamento sem psicoterapia resolve o sintoma imediato — mas não endereça as causas. A recaída, sem esse suporte, é muito mais provável.
Conclusão: você não precisa convencer ninguém — precisa se comunicar bem
O médico não é seu juiz. Ele não está lá para decidir se você merece descanso. Ele está lá para avaliar sua saúde — e para fazer isso bem, precisa das informações certas.
Sua função nessa consulta não é provar que está sofrendo. É comunicar com clareza o que está acontecendo com você. Preparado, com suas anotações, sem minimizar e sem vergonha.
Você chegou até aqui. Isso já é coragem. Agora vai até o fim.
Sobre o Saúde Mental na Firma
Acreditamos que trabalho saudável é trabalho alinhado com quem você realmente é. Explore nossos conteúdos sobre saúde mental no trabalho, prevenção do burnout, transição de carreira depois dos 40 e estratégias para vida profissional sustentável.
Este conteúdo tem caráter informativo e inspiracional. Decisões de carreira são pessoais e complexas. Considere buscar orientação de profissionais especializados (coaches de carreira, orientadores vocacionais, terapeutas) para apoio individualizado em sua jornada de transição.
